Gian Mira?

Giancarlo Miragliotta

Parei para olhá-los.
Trabalhavam assim, de noite, naquela rua afastada, diante da grade metálica de uma loja.
Era uma grade pesada: usavam uma barra de ferro como alavanca, mas ela não se levantava.
Eu passeava por ali, sozinho e ao léu.Também peguei na barra, para fazer força. Eles abriram espaço para mim.
Não acertavam o ritmo; falei “Ooh-op!”. O companheiro da direita me deu uma cotovelada e me disse baixinho: – Cale a boca! Você está maluco! Quer que nos ouçam?
Sacudi a cabeça como dizendo que tinha me escapado.
Atacamos de novo e suamos, mas no final tínhamos levantado tanto a grade metálica que já se podia passar. Olhamo-nos no rosto, contentes. Depois entramos. Mandaram-me segurar um saco. Os outros levavam umas coisas e botavam ali dentro.
- Tomara que esses velhacos da polícia não cheguem! – diziam.
- De fato – eu respondia. – Velhacos mesmo, é o que eles são!
- Silêncio. Não está ouvindo barulho de passos? – diziam de vez em quando. Eu ficava atento, com um pouco de medo.
- Que nada, não são eles! – respondia.
- Eles sempre chegam quando menos se espera! – um me dizia.
Eu balançava a cabeça. – Matar todos eles, é o que se devia fazer – eu falava.
Depois me disseram para ir um pouco lá fora, até a esquina, e ver se estava chegando alguém. Eu fui.
- Uns ruídos lá longe, perto daquelas lojas – disse o meu vizinho.
Fiquei à espreita.
- Ponha a cabeça para dentro, imbecil, porque se nos virem vão escapar de novo – sussurrou.
- Eu estava olhando… – desculpei-me e fiquei grudado no muro.
- Se a gente conseguir cercá-los sem que eles percebam – disse o outro -, vamos pegá-los numa armadilha, todos eles.
Nó nos mexíamos aos pulos, na ponta dos pés, prendendo a respiração: a toda hora olhávamos um para o outro, com os olhos brilhando.
- Não vão mais escapar – disse eu.
- Finalmente vamos conseguir pegá-los com a mão na massa – disse um.
- Já era hora – disse eu.
- Esses delinqüentes canalhas, roubar assim as lojas! – disse o outro.
- Canalhas, canalhas! – repeti, com raiva.
Mandaram-me um pouco para a frente, para ver. Fui parar dentro da loja.
- Agora – dizia um deles, pondo um saco no ombro – eles não nos pegam mais.
- Depressa – disse outro -, vamos dar no pé pelos fundos! Assim a gente escapa, nas barbas deles.
Todos nós tínhamos um sorriso de triunfo nos lábios. – Vão ficar a ver navios – disse. E escapuliu pelos fundos.
- Conseguimos tapeá-los de novo, esses trouxas! – diziam. Nisso, ouviu-se: – Alto lá, quem está aí! – e as luzes se acenderam. Nós nos metemos num canto escondido, pálidos, e nos seguramos pela mão. Eles entraram ali também, não nos viram, voltaram para trás. Pulamos para fora, e pernas, para que te quero!
- Enganamos eles! – gritamos.
Tropecei duas ou três vezes e fiquei para trás. E me vi no meio dos outros que também corriam.
- Corra – me disseram -, que nós vamos pegá-los.
E todos galopavam pelos becos, perseguindo-os. – Corra por aqui, corte por ali – diziam, e agora os outros só estavam um pouco na nossa frente, e eles gritavam: – Depressa, para que eles não escapem.
Consegui grudar nos calcanhares de um. Ele me disse: – Parabéns, você conseguiu escapar. Rápido, por aqui, que eles vão perder a nossa pista! – e me encostei nele. Um pouco depois vi que eu estava sozinho, num beco. Um deles passou pertinho de mim e disse, correndo: – Corra, por ali, eu os vi ali, não podem estar muito longe.
Corri um pouco, atrás dele. Depois parei, suando. Não havia mais ninguém, não se ouviam mais gritos. Pus as mãos nos bolsos e recomecei a passear, sozinho e ao léu.

Solidariedade – Ítalo Calvino, Um general na Biblioteca.

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